quinta-feira, 22 de março de 2012

Ações e Reações

  Existe algo a ser dito sobre o reacionismo. Reacionismo é o movimento que tenta justificar como corretas ideias que estão sendo contestadas popularmente. Servem como exemplos as diversas insinuações de que homossexuais não sofreriam tanto preconceito quanto sofrem, só seriam sensíveis demais, ou outras semelhantes referentes a outros grupos. O reacionista, em especial o do humor, costuma se defender como estando expondo os exageros dos movimentos em favor de mudanças sociais.

  Quem está certo? Como é bastante comum se ver em tais disputas, há erros em ambos os lados, porém ambos tem seus acertos também. Tomo como exemplo um vídeo do "Parafernalha", que teria supostamente intenção humorística, e um artigo sobre o vídeo postado no "Bule Voador". Link do artigo (no qual há o link para o vídeo): http://bulevoador.com.br/2012/03/33838/ Há spoilers em seguida, caso prefiram ler e ver os dois antes.

  O vídeo mostra um homossexual tentando pagar produtos em uma loja com cheque e reclamando que as práticas necessárias para aceitar cheques estariam sendo impostas contra ele por sua sexualidade, mas que desdenha de um negro que faz o mesmo quando pedem para revistá-lo, sendo notável que o homossexual provavelmente não estava sendo perseguido (a prática de requerer cadastro para aceitar cheques é comum e do cliente é requerido apenas o preenchimento de um formulário padrão). O artigo sugere que a colocação de um homossexual não sofrendo preconceito seria com a intenção de indicar que não há preconceito, e colocá-lo inferindo preconceitos teria a intenção de sugerir que o preconceito contra homossexuais ou boa parte dele seria invenção destes.

  Eis então a questão: se existe preconceito contra um grupo, seja por raça, origem, sexo, orientação sexual, profissão, condição ou outro, isto significa que toda vez que um membro deste grupo se sentir ofendido ele tem motivos para isto?

  O vídeo do Parafernalha não me foi engraçado. A situação é meramente tensa, sem haverem nele reais piadas, apenas a possibilidade de talvez se inferir algo se colocando na situação do atendente de loja. Porém, deve ser ressaltado que o vídeo apresenta em seu desfecho uma situação totalmente oposta em que a discriminação é clara (o garoto negro é chamado de "neguinho" por um homem parado na porta que decide revistá-lo, não havendo qualquer motivo para se pensar que este tenha cometido um roubo), e o cliente pensa ser meramente "paranóia" do garoto e diz que "eles pensam ter mais direitos que nós".

  Em outras palavras, me parece claro que a intenção do vídeo é demonstrar que membros de grupos que sofrem preconceito são capazes de paranóia e de preconceito para com outros indivíduos. Isto, é claro, é minha análise literária do vídeo, podendo ser incorreta, mas me parece que o vídeo é positivo por lembrar da necessidade de se manter em cheque e de se colocar no lugar dos outros, para entender o preconceito e não se permitir praticá-lo.

  Dito isto, o vídeo no fim do artigo mostra uma tendência assustadora. Um humorista, Danilo Alexandrino, diz que fundou um clube de humor chamado "KKK" para o humor criminalizado, onde uma pessoa deve assinar um termo para participar dos shows por estes apresentarem humor racista (palavra usada por ele).

  Aqui, realmente, pode ser vista uma terrível tendência a se justificar pelo humor o preconceito. Se há a necessidade de se explicar porque "KKK" seria aceitável, como o próprio humorista parece reconhecer ao dar a explicação, isto significa que não é aceitável.

  É interessante notar que a noção de reacionário pode ser aplicada a quem luta por mudanças sociais. Reagir é agir contra, seja contra algo incorreto ou correto. E deve-se lembrar que, ainda que em menor número, existem exageros por parte os movimentos por reformas sociais, como o grande George Carlin apontou sobre o movimento feminista dos EUA que sugeria não apenas a utilização de termos neutros para posições corporativas, já que estas podem ser exercidas por ambos os sexos, mas neutralidade em todos os termos da língua, mesmo os referentes a apenas um gênero, possivelmente chegando a transformar o "HE-MAN" em "IT-PERSON".

  O mesmo pode ser dito de indivíduos. Eu lembro de uma conversa entre HOWARD STERN, pessoa principal de um talk show de rádio americano, e um músico homossexual, na qual o apresentador fez perguntas de curiosidade sexual, da mesma forma que faz com heterossexuais, pessoas de diversas raças, portadores de deficiência, etc. Durante toda a conversa, que deve ter durado alguns 20 minutos ou mais, o músico respondeu perguntas insinuando que o apresentador deveria ter tido as mesmas experiências sexuais sobre as quais perguntava, insinuando que ele, e todos os homens, seriam na verdade homossexuais ou bissexuais, e, portanto, que o heterossexualismo seria apenas uma invenção para não admitir uma real sexualidade.

  Igualmente, deve-se lembrar que não são racistas todas as observações baseadas na percepção da pessoa como parte de um grupo. São baseadas na participação de um grupo todas as observações sociais, pelo simples fato de todos nós sermos parte de grupos. Uma observação como "as torcidas organizadas tem causado muitos tumultos" continua sendo válida, mesmo sendo referente a um grupo e sendo genérica. A definição por grupo e a generalização são necessárias para as atitudes preventivas (o que não significa que se possa definir por grupo a participação em um crime).

  Tudo se reduz portanto a se pensar nos méritos. É a reação válida ou não? Todos nós temos de nos manter em cheque, tanto para não acusar de preconceito aqueles que nos tratam da mesma forma que tratam a todos, quanto para não deixar passar preconceitos.

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